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O texto abaixo já o publiquei em livro, mas pensei em retomá-lo colocando algumas inserções referentes ao momento presente, pois parece ser útil nesse tempo de pandemia. Todos estamos preocupados com as consequências dela para o nosso futuro.

Ouvi várias vezes, a expressão: “estou fazendo reverência até para moeda de dez centavos” para significar primeiramente a luta e as dificuldades econômicas pelas quais a pessoa estava passando, para poder sobreviver num mundo competitivo e às vezes cruel.

Contudo, a luta pela sobrevivência vai além do econômico. Esse é apenas um aspecto de uma luta maior que envolve o cotidiano das pessoas. Há lutas que se travam no interior de cada um, que criam angústias existenciais nem sempre fáceis de encontrar respostas satisfatórias. Essa luta pode aparecer atrás da dificuldade com a saúde, porque não tem o tratamento adequado; nesse tempo de covid-19 torna-se ainda mais aguda; no conflito em relação à amizade, porque não pode cultivá-la a contento como desejaria.  Pode se esconder no abandono de uma prática de fé, porque está desnorteado com tantas igrejas oferecendo salvação e pedindo colaboração. Pode se apresentar na convivência com os vizinhos, porque mal se veem e se cumprimentam. Reacende-se quando está com parentes, porque não quer ouvir as mazelas de uns e outros. Depara-se com ela nas relações de trabalho porque a disputa pelos cargos e promoções não dá espaço à solidariedade. Não consegue livrar-se dela nem quando faz ações beneméritas, porque teme ser mal interpretado. Quando faz gesto de solidariedade ou colaboração desinteressada logo aparece a inveja e o ciúme de alguém que tenta destruir a amabilidade de uns para com os outros. Assim a luta pela vida e as angústias que a acompanham parece uma rosca sem-fim, gira, gira e não encontra resposta satisfatória. Aí parece ter apenas uma saída, conformar-se! A vida consiste em contentar-se com as sobras que eventualmente pode dispor.

Diante disso os horizontes ficam pequenos, os sonhos se reduzem e o desânimo torna-se o retrato impresso de um dia após o outro. A vida então fica assim: contentar-se com as migalhas e ficar no seu canto com seus desencantos; curvar-se diante da sorte que a sociedade criou para cada um. Satisfazer-se com as sobras de alegria que a tristeza não conseguiu destruir; com as esperanças que as dores não conseguiram matar; com os sonhos que os pesadelos não sufocaram; com o pouco de paz que a depressão não abafou. E de sobras e migalhas a vida vai se esvaziando. Mas, mesmo aí, há perguntas que não se calam dentro de cada um. A vida é isso? Aonde vamos parar dessa maneira?

O quadro acima descrito parece ser muito pessimista e trágico, embora seja a realidade de muitas pessoas. Mas é preciso dizer também que não é só de sobras que se pode viver. Há uma condição básica que se antepõe a esses problemas todos e aí parece residir o outro lado da moeda.  Para não se ficar prisioneiro dessa tragicidade é necessário encontrar uma razão para viver que ultrapasse todos esses quesitos.

Os horizontes humanos comportam esperanças que apontam para além das angústias existências e das lutas pela sobrevivência e pandemias. A vida parece desejar outro tipo de resposta. Eis Algumas alternativas encontradas por muitos: Para os que creêm a vida tem sentido até onde alcança sua fé! Se crer em um único Deus, sua vida centra-se Nele e Dele obtém suas respostas. Se crer em espírito que se reencarna, fica aguardando sua vez na fila das diversas vidas até encontrar seu estado de “nirvana”. Se crê em muitos deuses, sua vida fica protegida porque cada um deles é responsável  por uma parte dela e assim espera que eles o protejam e o salve. Para quem não crê em vida após a morte não há motivo para se preocupar com questões escatológicas, pois para ele tudo termina com a morte, e pronto, está resolvido!

Como se vê, a vida não se reduz às reverências aos “centavos” ou às “sobras”. Cada um se torna responsável pelas escolhas que faz e as consequências que daí decorrem.

E assim basta resolver só um dilema! Por um lado, tudo depende de cada um, mas ninguém tem absoluta certeza de poder se autogarantir. Se precisar depender de algo ou de alguém, então não há como fugir. No final das contas, o que conta não são as migalhas das sobras que se recolheu, o que conta são as escolhas vitais que se fez. Elas decidem o rumo da vida e o que cada um faz dela.

Nesse tempo de isolamento cada um de nós o vive de acordo com o que acontece ao seu redor e dentro de seus espaços interiores. Uns sofrem mais que outros, seja pelas circunstâncias que tem que enfrentar, seja pelo modo como  administra suas ansiedades e sufocos, causados pelo Coronavirus.  Somos convidados a fazer um treino extra de paciência para suportar o tempo que ainda temos pela frente. Até aqui chagamos! Mas, o cansaço parece querer tomar conta e alimenta, em muitos, o desespero. Não é hora de  sucumbir por achar que as migalhas estão acabando, mas sim, de renovar-se na esperança de que dias melhores estão se aproximando!

Pe. Deolino Pedro Baldissera, sds
Pároco

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