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O evangelista João nos conta que Jesus apareceu ressuscitado pela terceira vez aos discípulos! E desta vez junto ao mar de Tiberíades onde estavam pescando. Haviam passado a noite em pescaria que não lhes rendeu peixe nenhum. O “mar não estava para peixe naquela noite”! o texto cita os nomes dos pescadores, eram em sete. Pedro os liderava na pescaria. Ele era profissional da pesca e olhando para o mar pensou, hoje o mar tá pra peixe e disse “eu vou pescar” e os companheiros disseram, nós também! Pedro enganou-se, algo saiu errado, passaram a noite tentando e nada de peixe.

Quando o dia estava clareando voltam para a praia sem almoço garantido. De repente se surpreendem vendo alguém à margem que não sabem quem é! Este desconhecido pede se eles têm algo para comer. A resposta em coro foi: “não”! “Joguem a rede no lado direito da barca”. Que ordem estranha! Eles pescadores profissionais se submetem a ordem e jogam a rede. Num piscar de olho veem a rede cheia de peixes que temem que ela se rompa. Uma pescaria jamais vista! Aí um deles ”aquele discípulo que Jesus amava disse a Pedro: É o Senhor”! Seu feeling vendo o “sinal” intuiu quem era o que estava lá na margem! Pedro ouvindo isso, colocou a roupa, pois estava nu e pulou na água. Não se sabe se nadando ou caminhando teve pressa em chegar à margem, enquanto os demais remavam para levar o barco até ancorá-lo.

Ao por os pés em terra, viram um fogareiro aceso assando peixes. Jesus pede que tragam alguns dos peixes que apanharam! Mais que depressa Pedro sobe no barco e arrasta a rede contendo cento e cinquenta e três peixes. Tinha amostra de todos os tipos de peixes conhecidos na época. Eram os que constavam nos catálogos dos pescadores. É algo fora do comum. Pedro e seus companheiros nunca haviam visto tanto peixe grande numa só lançada de rede. Algo novo estava acontecendo. Jesus os convida para o “café” da manhã. Para quem passou a noite sem comer, nada mal logo cedo um peixe fresco assado! Todos intuem que é o Mestre, mas ninguém fala. A emoção era tão forte que ficaram como que mudos. Comem o peixe e acompanhado de pão que Jesus lhes distribuiu.

A narrativa de João parece ter um propósito, vamos fazer umas hipóteses para ver se nos ajudam entender o significado e qual a mensagem para nós.

Começando pelos personagens do texto. São nominados 7 discípulos. Sabemos que o número sete na Bíblia tem sentido simbólico, ele reflete a plenitude, a totalidade. Sete foram os dias da criação, sete são os dias da semana. Sete é também resultado da cosmologia da época que concebia o universo a partir dos 4 pontos cardeais e o céu, a terra e o sheol. Somando esses elementos encontramos o número sete. Assim há outras aplicações simbólicas a respeito do sete. Se esta hipótese é válida podemos então dizer que o grupo dos sete discípulos representam a totalidade dos seguidores de Jesus. O Mar de Tiberíades, o nome era em homenagem a Tibério, imperador romano que escravizava o povo da palestina na época. Tomando no sentido simbólico essa mar não contém aquilo que garante a vida. Não há peixes! Eles só aparecem depois que Jesus intervém! Pedro que havia sido escolhido por Jesus como seu líder, entra no mar de Tiberíades  e atesta que nesse mar  enquanto reina “Tibério” não haverá liberdade e vida para o povo. As trevas enquanto dominam tornam em vão o trabalho. Também, pode-se dizer, que Pedro e seus companheiros que formam uma comunidade, sem Jesus não conseguem vencer as trevas causadas por Tibério. Só no amanhecer do novo dia com a presença de Jesus as coisas mudam de figura. Parece um indicativo de que a missão de Pedro, como pescador de homens só terá sucesso quando obedecer às ordens do mestre “joguem a rede do lado direito”!

O evangelista João gosta do termo amanhecer para se referir à Ressurreição! Foi assim com Maria Madalena no primeiro dia da semana! O amanhecer sempre traz uma nova luz e um novo dia! O imperador Tibério como símbolo dos dominadores do povo não é luz e não traz salvação para ninguém. Seu reinado só produz trevas e não oferece condições de vida digna. Pedro seguidor de Jesus é responsável para mudar essa situação. Confiar no “Senhor” e em sua palavra, aí as coisas tomam outro rumo. A pescaria acontece nesse mar! A missão de Pedro e companheiros é entrar no mar de Tiberíades para torná-lo lugar de vida em abundância (153 grandes peixes)! Pedro será enviado para em nome de Jesus ser testemunha da Ressurreição, anunciando um tempo novo, um novo amanhecer!

Jesus está à margem, mas atuante! Pedro e os demais precisam reconhecê-lo “é o Senhor” e para isso acontecer precisa vir primeiro o amor (o discípulo que Jesus amava o reconheceu por primeiro!) e é confiando nele, apesar das evidências contrárias (não haviam pescado nada) que vão ter sucesso na missão.

Os discípulos precisam alimentar-se do alimento oferecido por Jesus (peixe e pão). Na simbologia cristã a palavra peixe em grego antigo ἰχθύς significa as letras iniciais para dizer: “Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador”! Talvez isso seja uma mera digressão minha, em todos os casos como hipótese pode-se pensar dentro do contexto do texto que estamos examinando. O pão é tomado como símbolo do alimento que sustenta a vida no sentido biológico, mas, também é tomado por Jesus como seu corpo! alimento do espírito!

A atitude de Jesus de dar alimento aos discípulos (peixe e pão) pode significar  então que “Jesus Cristo Filho de Deus Salvador” é o alimento que precisamos para ser seus seguidores. Com um detalhe, com a participação humana (Jesus pediu que trouxessem peixe da pescaria deles!). Jesus conta com a colaboração de cada um. No ofertório da missa o padre reza, quando apresenta o pão “recebe Senhor o pão, fruto da terra e do trabalho humano, que vai tornar-se pão para a vida eterna”!

O evangelista João termina o texto dizendo que ‘esta foi a terceira vez que Jesus se manifestou aos discípulos após ter ressuscitado dos mortos’! Podemos pensar que Jesus ficou três dias no sepulcro antes de ressuscitar, também por três vezes Pedro o havia negado. Conforme o costume da época, quando três pessoas testemunhassem um fato, este era tido como verdade incontestável. Se foi esta a intenção de João não sei, são ilações que estou fazendo que me parece ter um pouco de sentido.

IMPLICAÇÕES PARA NÓS:

Se aplicamos o texto à nossa vida podemos pensar, assim como Pedro e seus companheiros, formavam uma comunidade de seguidores de Jesus, nós também que professamos a mesma fé, formamos comunidades. Como eles somos convidados a pescar no mundo com muitos Tiberios. Se pretendemos fazer sozinhos confiando apenas em nossa “experiencia de pescadores” estamos fadados ao fracasso. Se ao contrário, aceitamos a orientação de “jogar a rede do outro lado” aí, coisas nunca vistas acontecem. Para que uma comunidade se mantenha forte e capaz de realizar a missão precisa se alimentar de “ἰχθύς” e do pão dado por Jesus. Sem isso não há futuro.

ORAÇÃO

Senhor ressuscitado, acompanhe-nos em nossas “pescarias” anunciando teu evangelho em meio as trevas do mundo com muitos “Tibérios”. Fique ao alcance de nossa vista para que saibamos te reconhecer como fez o discípulo amado: “é o Senhor”. Pois sem ti nossas pescarias fracassam.

Alimenta-nos com teu “peixe” e com  teu pão. Ajuda-nos a sentir a alegria que os discípulos tiveram ao ver-te à margem do mar. Teus cuidados para conosco nos garantem o pão de cada dia. Se forem necessários emite teus “sinais’ tantas vezes, quantas precisar para reconhecer-te. Que o resultado de nosso trabalho missionário seja fruto da obediência à tua palavra. Amém!

Pe. Deolino Pedro Baldissera, sds
Pároco

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